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COURO
Curtumes buscam nichos em porcos, jacarés e cavalos


Há segmentos processando couros fora do mercado de 35 milhões de peles bovinas esfoladas no Brasil em 2003. De qualquer forma, geram empregos, envolvem tecnologias diferenciadas e se colocam como alternativas. Revelam o espírito empreendedor de gente que trabalha quase no anonimato.

Em Getúlio Vargas, a 350 quilômetros de Porto Alegre-RS na divisa com Santa Catarina, o Curtume Riograndense mantém a tradição de processar pele de porco. Segundo o gerente técnico do empreendimento, Nilvo Valdir Fritsch, a empresa já esteve praticamente paralisada, anos atrás, mas com o seu retorno da China onde montou um curtume para industriais de calçados norte-americanos, os proprietários do Riograndense decidiram contratá-lo para colocar a planta em operação novamente.

De cara, a reativação criou 70 novos empregos na região. Chegaram a experimentar outras matérias-primas, mas após montarem uma rede de fornecedores de pele de porco decidiram manter o foco em cima de sua vocação inicial.

A crise nos curtumes de pele suína chegou há 15 anos, quando 30 empresas operavam com o material. O motivo foi o surgimento da nova tecnologia desenvolvida para retalhar o animal mantendo a pele junto com a carne, derrubando a oferta de couro. Os empresários mais capitalizados migraram para o curtimento de couro bovino. Como os fulões, maquinário indispensável nesta indústria, variam conforme o tamanho da pele – a do porco só tem 1 metro quadrado – os menos aquinhoados simplesmente fecharam por não conseguirem trocar o equipamento.

No Riograndense, houve negociação com criadores da região norte do Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina. Eles abastecem o curtume. O couro retirado do porco é mais macio em comparação com o bovino, mas a grande quantidade de gordura modifica um pouco o processo exigindo duas etapas no caleiro, onde é necessário provocar reações químicas mais fortes, pois quando sobra gordura na pele o resultado é um produto exalando odores indesejáveis para peças de vestuário ou acessórios.

Enquanto nessa etapa inicial o couro de boi fica 24 horas o do porco fica três dias. Basicamente a gama de produtos químicos é a mesma, cromo no curtimento, recurtentes, corantes, pigmentos, resinas, vernizes, dependendo da aplicação para a qual a pele está destinada. O mercado interno absorve toda a produção do Riograndense e para cobrir a demanda a empresa importa matéria-prima principalmente da Rússia e do Japão, somente salgada e acomodada em contêineres. A produção é de 1 mil e 200 toneladas ano.

A pele de porco é bem mais leve. “Se pegar 0,6 milímetros de uma mesma metragem de couro de porco e de gado, o peso específico é menor”, explica Fritsch. Além disso, é um material mais resistente. “Uma pele entre 0,6 e 0,8 milímetros de couro suíno pode servir para revestir um sofá. A de boi com a mesma espessura rasgaria”, ensina o químico com especialização na Escola de Curtimento de Estância Velha-RS. O couro suíno é muito utilizado também na forração interna dos calçados, por ter maior capacidade de absorção do suor, decorrente de sua alta porosidade. O preço também é diferenciado. Se confeccionar um mesmo modelo de bolsa com os couros de boi e de porco, a segunda terá preço mais alto.

O mercado cativo do couro acabado em Getúlio Vargas é o Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, e em São Paulo, as cidades de Birigui Jaú, Franca, além de São João Batista em Santa Catarina. Há ainda os novos centros produtores de calçados da Bahia, Brasília e na região metropolitana de Fortaleza. O produto serve também para o revestimento de móveis, capas de agendas, carteiras porta-jóias. Certa feita uma decoradora adquiriu uma quantidade significativa de couro de porco em retalhos de diversas cores do Riograndense. O material foi transformado nas cortinas da mansão do ex-campeão da Fórmula 1 e da Indy, Emerson Fittipaldi, em Miami, Estados Unidos.

A especialização da mão-de-obra para curtir couro suíno acontece dentro do curtume. Segundo Fritsch, as escolas de curtimento passam apenas uma visão geral, pois o foco dos cursos é a preparação da matéria-prima proveniente do rebanho bovino. “A rotatividade da mão-de-obra é pequena porque couro é resultado de um processo físico-químico à base de produtos, temperatura e pressão e o couro de suínos tem suas particularidades”, finaliza o gerente técnico.

De cavalo – Outra pele em ascensão no mercado interno é a de eqüinos. Atualmente cinco frigoríficos entre o Paraná e Goiás abatem cavalos com produção em escala. Um dos principais compradores é a Esse & Jota Comercial, especializada na exportação e importação de couro natural de Novo Hamburgo-RS. A pele do animal é considerada uma das mais requintadas e se presta a peças de vestuário e à forração de estofados para automóveis.

A empresa compra a pele em estado wet-blue e terceiriza as etapas de recurtimento e de acabamento em curtumes do Vale dos Sinos, de acordo com as especificações exigidas dos clientes, em grande parte grifes famosas e butiques da região dos Jardins, em São Paulo, onde prolifera o comércio de confecções para as classes de maior poder aquisitivo. Ali o couro de eqüino chega na forma de roupa, calçados e bolsas. O consumo diário é na base de 300 esfolas por dia. Assim como a carne de porco, a de cavalo também é rica em gordura, exigindo reações químicas mais complexas para remover a graxa da pele.

Conforme o diretor da Jota & Esse, Sérgio Dal Toe, a firma partiu para a comercialização da pele de cavalo como uma alternativa de preço. De abril a junho, essa matéria-prima fica 15% mais barata em comparação com a bovina, como conseqüência do período de fabricação de botas e sapatos para abastecer o mercado de calçados de inverno da Europa, cujo movimento de exportação começa entre julho e agosto.

Nesse período, os frigoríficos inflacionam a pele convencional. Assim, como o bovino o de cavalo serve à confecção de sapatos, carteiras, tênis e sandálias. Há 12 clientes cativos nos mercados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Um outro nicho é o couro de cabra e do mestiço como é denominado o animal resultante do cruzamento entre caprinos e ovinos, também denominado carneiro de pelo curto do nordeste do país. É destinado a um público ainda mais seleto.

Jacaré negro – Em Estância Velha-RS, capital brasileira do curtimento de couro, opera um entre os cinco processadores de pele de jacaré existentes no Brasil, dentro dos parâmetros definidos na legislação de proteção à fauna e sob a fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). A unidade de Luís Bocchi adquire a matéria-prima de 12 criatórios do jacaré-negro-do-pantanal homologados para desenvolver a espécie em cativeiro e abatê-la para finalidade comercial.

Valor agregado não falta à pele do réptil. Se um calçado de cromo alemão é cotado a R$ 800,00 em média, um dos mais caros quando o assunto é couro de boi, o mesmo não sairia por menos de R$ 2.700,00, se fosse confeccionado com o couro de jacaré. O químico e biólogo Luís Bocchi informa que 80% da produção são exportadas para os Estados Unidos. Os 20% restantes são vendidos como revestimento dos calçados, bolsas e demais acessórios das grifes mais caras do Brasil.

O Brasil ainda engatinha nesse tipo de curtume. E mesmo alguns curtidores do Mato Grosso dependem do know-how de Bocchi para processar suas peles. Enquanto o país abate dez mil animais por ano, o líder mundial do segmento, a Colômbia, esfola 600 mil legalmente, e 1 milhão clandestinamente. Nas Austrália e África juntas, 60 mil crocodilos são abatidos legalmente a cada 12 meses com a finalidade de venda da carne como alimento humano e da epiderme como matéria-prima para roupas, acessórios e calçados.

O processo de curtimento da pele de jacaré é diferente. A carne não é salgada após o abate. Sai congelada do abatedouro. No próprio curtume é descongelada e recebe cargas de biocidas, fungicidas e conservantes para cortar a decomposição biológica natural. No remolho e no caleiro é retirada a queratina. Posteriormente, o PH é rebaixado de 12 para 8,5.

Em seguida, é realizada uma lavagem com enzimas para retirada de gorduras e fibras. No píquel é necessário banhar a pele em ácido fórmico e clorídrico com o objetivo de remover células de tecido ósseo existente dentro da pele do réptil.

Somente após a etapa de purificação do couro entra o sal de cromo para o curtimento. O recurtimento acontece com extratos vegetais ou sintéticos de tanino. Enquanto um couro bovino leva 24 horas para ser totalmente processado, o do jacaré necessita de banhos de vários dias, levando até 20 para ficar totalmente pronto. A adição de cores ocorre por tingimento já nos padrões encomendados pelos fabricantes de artigos em couro.

Praticamente não existem procedimentos mecânicos em fulão como ocorre com as demais peles. “O processo do couro de jacaré é muito mais químico do que mecânico”, explica Bocchi. Ele também trabalha com o couro de avestruz, cujo processo é semelhante, mas exige ação muito mais forte para retirar a gordura.

Fernando de Castro (www.química.com.br)

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